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segunda-feira, 30 de março de 2026

Com fertilizantes 40% mais caros, agro fica “entre a cruz e a espada”

As restrições impostas por gigantes econômicos como China e Rússia — que adotam políticas cada vez mais protecionistas para garantir o abastecimento interno de fertilizantes — estão no centro de uma nova crise global, potencializada pela guerra no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã.

Em meio a conflitos geopolíticos e gargalos logísticos, a redução das exportações desses insumos estratégicos ameaça cadeias produtivas em todo o mundo, especialmente em países altamente dependentes de importações, como o Brasil.

A tensão internacional adiciona um novo componente de incerteza. A região, que inclui importantes exportadores como Israel, Catar, Arábia Saudita, Irã e Omã, enfrenta impactos diretos com o fechamento de rotas marítimas e instabilidade política. O resultado é a diminuição da oferta global e o aumento expressivo dos preços.

Somos dependentes

No Brasil, onde cerca de 85% a 90% dos fertilizantes utilizados na produção agrícola são importados, o cenário é particularmente sensível. A dependência externa coloca o País em posição vulnerável diante de qualquer ruptura no fluxo internacional desses insumos. Desde o início das tensões recentes, os preços dos fertilizantes importados já registraram alta de aproximadamente 40%, pressionando ainda mais os custos de produção no campo.

A preocupação dos produtores rurais cresce à medida que se aproxima o próximo ciclo agrícola. Com o encerramento da colheita da soja e o avanço do plantio do milho, o foco já se volta para o segundo semestre, quando culturas como soja e cana-de-açúcar exigem volumes elevados de fertilizantes.

A incerteza sobre a duração dos conflitos, especialmente envolvendo o Irã, amplia o receio de desabastecimento ou novos aumentos de preços. Diante dessa realidade, produtores têm adotado uma postura cautelosa. A estratégia é aguardar uma possível estabilização do mercado internacional, na expectativa de que o arrefecimento das tensões geopolíticas permita uma recomposição da oferta e, consequentemente, dos preços. No entanto, o ambiente de margens apertadas dificulta a tomada de decisões e eleva o nível de risco nas operações agrícolas.

Plano Nacional de Fertilizantes

Especialistas apontam que o problema vai além das crises momentâneas. Segundo Maciel Silva, diretor-técnico adjunto da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), o País ainda carece de uma estrutura robusta para a produção interna de fertilizantes. “A agricultura evolui numa velocidade rápida, mas a infraestrutura de produção de adubos no Brasil não acompanhou esse crescimento”, destaca.

O País possui o Plano Nacional de Fertilizantes, lançado em 2022, que prevê a redução da dependência externa até 2050. No entanto, especialistas alertam que o avanço do plano exige investimentos consistentes em exploração de matérias-primas, ampliação da capacidade industrial e melhoria da logística.

Apesar das dificuldades, a CNA avalia que não haverá desabastecimento no curto prazo. O principal impacto, segundo a entidade, será no custo: os fertilizantes devem continuar mais caros, pressionando a rentabilidade do produtor e, possivelmente, refletindo no preço final dos alimentos.

Para o professor de economia da Fundação Getulio Vargas Agro, André Diz, o momento exige planejamento estratégico. “O Brasil entra agora em um período crucial do calendário agrícola. A demanda por fertilizantes cresce no segundo semestre, e qualquer instabilidade no fornecimento pode afetar diretamente a produtividade”, explica.

Desafio estrutural

A crise dos fertilizantes evidencia um desafio estrutural do agronegócio brasileiro: a dependência externa de insumos essenciais. Em um cenário global cada vez mais instável, reduzir essa vulnerabilidade deixa de ser apenas uma meta de longo prazo e passa a ser uma necessidade urgente para garantir a segurança alimentar e a competitividade do País no mercado internacional.

Ministério da Agricultura monitora os insumos para reduzir impactos

O Ministério da Agricultura e Pecuária informou que tem monitorado de forma permanente as cadeias de suprimentos possivelmente afetadas pela guerra no Oriente Médio.

Entre os produtos sob acompanhamento estão fertilizantes, como o nitrato de amônio, que teve sua importação para o Brasil temporariamente interrompida pela Rússia, por conta da guerra contra a Ucrânia. O conflito na Europa, iniciado há quatro anos, já provocava volatilidade nos preços e ampliava a corrida global por insumos agrícolas.

A fim de evitar que o problema prejudique ainda mais os produtores rurais, o ministério afirma que mantém diálogo com diferentes atores do setor, para avaliar alternativas de logística, importação e estratégias que garantam a segurança do abastecimento para o País.

De acordo com a pasta, o Brasil importa “parcela significativa dos fertilizantes utilizados na produção agrícola”, motivo pelo qual tem ressaltado a necessidade de cautela por parte do mercado e dos produtores rurais.

Especulação

Segundo o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, a instabilidade internacional tem alimentado movimentos especulativos que pressionam os preços dos fertilizantes. Fávaro ressalta que a melhor forma de enfrentar a especulação é “não comprar quando o preço está artificialmente elevado”.

Em nota, o Mapa informa que a safra de inverno já está plantada ou em fase final de implantação, o que reduz a necessidade imediata de aquisição de fertilizantes.

A próxima grande demanda está prevista para setembro, quando será iniciado o plantio da safra de verão.

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