8.1 C
Toledo
sábado, 22 de agosto de 2026

Depois dos 64, ainda há muito futuro pela frente

Aos 71 anos, Beno Welter continua ativo no mercado de trabalho, desafiando a visão tradicional da aposentadoria. Sua história reflete uma mudança nacional no perfil dos trabalhadores 60+, impulsionada por longevidade e demanda do mercado.

Conheça a história de Beno Welter, 71, e Olga Bongiovani, 72, que continuam trabalhando e inspiram uma nova visão da terceira idade – Foto: Nileide

Em 1967, os Beatles lançaram “When I’m Sixty-Four”, canção que imaginava como seria chegar aos 64 anos. Naquele mesmo ano, no Oeste de Santa Catarina, Beno Welter se aproximava da vida adulta pelo caminho que conhecia melhor: o trabalho. Aos 13 anos, começava a construir o próprio futuro.

- PUBLICIDADE -

Quase seis décadas depois, a pergunta dos Beatles ganhou uma resposta diferente daquela imaginada no fim dos anos 1960. Aos 71 anos, Beno continua batendo ponto, atendendo clientes, aprendendo novas tecnologias e foi escolhido entre os colaboradores de destaque do supermercado onde trabalha, em Cascavel.

Quando conversou com a reportagem do Hoje, ele completava exatamente um ano na rede. Se depender de seus planos, ainda há bastante futuro pela frente. “Eu nunca parei de trabalhar na minha vida”, resume.

O caixa da vida continua aberto

Beno começou a trabalhar aos 13 anos, no Oeste catarinense. Aos 19, morava em Toledo, onde concluiu o curso técnico em Contabilidade. Trabalhou no Banestado e no Banco do Brasil, foi empreendedor, prestou serviços para a filha e também dividiu o palco, como músico, com duas filhas cantoras. Agora, aos 71, está atrás de um caixa de supermercado — e feliz.

“O que eu mais gosto é o contato com o público”, conta.

Para Beno, a atividade profissional não representa um último capítulo, mas outra página de uma história sem vocação para ponto final. Ele pretende permanecer no supermercado por mais cinco anos, até a filha caçula, hoje com 13, chegar à maioridade. Depois, pensa em buscar uma jornada menor. Parar completamente, porém, não está nos planos.

“Eu não sou como os demais que se aposentam e querem ficar em casa”, afirma.

Beno não fala como quem tenta provar alguma coisa. Parece apenas descrever a própria natureza: trabalhar sempre fez parte de sua vida. E é justamente aí que sua história deixa de ser apenas individual.

Do outro lado do caixa, uma mudança nacional

Dados do IBGE mostram que a ocupação de pessoas com 60 anos ou mais cresceu 53% em dez anos, acima do ritmo observado entre os jovens. O contingente de trabalhadores nessa faixa etária chegou a cerca de 8,8 milhões.

O envelhecimento da população explica parte desse movimento. Há, porém, outro fator: o mercado também enfrenta dificuldades para preencher vagas.

No varejo alimentar paranaense, a Apras (Associação Paranaense de Supermercados) identifica uma mudança nos dois lados do balcão: enquanto a população envelhece, as empresas enfrentam dificuldades para encontrar trabalhadores.

Segundo o superintendente da entidade, Maurício Bendixen, praticamente todas as redes associadas mantêm vagas abertas. A escassez de mão de obra deixou de ser apenas uma dificuldade operacional e, em alguns casos, passou a limitar a expansão das empresas.

Nesse cenário, contratar profissionais mais experientes deixou de ser somente uma ação de inclusão e passou a representar também uma estratégia de gestão.

“Em um mercado que enfrenta escassez de mão de obra, o talento não tem idade”, resume a Apras à reportagem do Hoje Express.

“Cabelos brancos” que ajudam a formar equipes

Os dados de uma rede supermercadista de Cascavel, que preferiu não ser identificada, ajudam a dimensionar essa mudança. Dos 1.425 colaboradores, 83 têm 60 anos ou mais — 5,8% do quadro. Cinco já passaram dos 70. Quinze estão há mais de duas décadas na empresa, e o funcionário mais antigo soma 37 anos de casa.

Há ainda um detalhe revelador: 42 dos 83 profissionais com 60 anos ou mais ingressaram na empresa antes de alcançar essa idade. Ou seja, envelheceram profissionalmente dentro da própria rede.

As funções mais ocupadas por trabalhadores acima dos 60 são as de operador de caixa, repositor de mercadorias e auxiliar de estacionamento. Segundo a empresa, esses profissionais se destacam principalmente pela responsabilidade e pelo menor absenteísmo.

A troca ocorre entre gerações. Os mais experientes transmitem conhecimento, rotina e cultura da empresa. Os jovens ajudam com novos sistemas, equipamentos e tecnologias.

Um conhece os atalhos da experiência e sabe lidar com o cliente que chega reclamando antes mesmo de dizer bom dia. O outro descobre, em segundos, onde clicar no sistema recém-instalado.

No supermercado, experiência e tecnologia descobriram que podem trabalhar no mesmo turno.

Um diferencial

Na loja onde Beno trabalha, a encarregada Mari acompanha de perto essa convivência. Ela não esconde o orgulho ao apontar os operadores de caixa mais experientes. Os clientes, conta, costumam elogiar a cordialidade e a simpatia com que são atendidos.

Na rotina da equipe, Mari percebe que os profissionais mais velhos demonstram responsabilidade e avisam quando precisam se ausentar. A comparação com os mais jovens transforma-se em intercâmbio: conhecimento de um lado, familiaridade com a tecnologia do outro.

Não é uma disputa entre passado e futuro, mas uma parceria. E essa convivência, antes vista como exceção, começa a fazer parte da paisagem do mercado de trabalho.

A fila também chegou à Agência do Trabalhador

Em Cascavel, a transformação também aparece nos atendimentos da Agência do Trabalhador. A Secretaria de Estado do Trabalho informou que 701 pessoas com 60 anos ou mais foram encaminhadas para vagas em 2024. Em 2025, foram 690. Em 2026, até agosto, já são 461 encaminhamentos.

O dado deste ano não pode ser comparado diretamente aos totais anteriores, mas já corresponde a cerca de dois terços do resultado de 2025.

Entre as mulheres com mais de 60 anos, há maior procura por oportunidades em serviços domésticos, limpeza e supermercados. Entre os homens, destacam-se vagas em logística, estoque e separação de mercadorias.

A Agência percebe maior abertura das empresas aos profissionais maduros, principalmente diante das vagas não preenchidas e da alta rotatividade. Em algumas funções, a idade começa a ser avaliada sob outro ângulo: experiência, responsabilidade e comprometimento passaram a pesar mais.

Um ponto impede qualquer romantização: a principal motivação percebida pela Agência para a procura de emprego entre os trabalhadores 60+ ainda é financeira. Muitos precisam complementar a aposentadoria. Outros querem permanecer ativos. E há quem, como Beno, simplesmente não imagine a vida sem atividade profissional.

Entre o querer e o precisar

Viver mais é uma conquista, mas também significa financiar mais anos de vida. Para quem chega à aposentadoria com renda insuficiente, o mercado de trabalho pode deixar de ser uma escolha e transformar-se em necessidade.

O crescimento da ocupação entre os mais velhos traz uma pergunta que não cabe nas estatísticas: quem trabalha depois dos 60 está prolongando a vida profissional que deseja ou tentando garantir a renda que faltou?

A resposta não é única. Há o aposentado que quer viajar, o avô que cuida dos netos, a mulher que abre um negócio, o profissional que volta a estudar e o trabalhador que permanece no emprego há décadas. Também há quem procure uma vaga porque a conta não fecha.

Todos têm mais de 60 anos, mas não vivem a mesma velhice.

É nesse espaço entre escolha e necessidade que a longevidade financeira ganha importância. O desafio não é apenas viver mais, mas ter condições de fazê-lo com autonomia.

Mudança social

A mudança não ocorre apenas no mercado. A sociedade também revê sua compreensão sobre o envelhecimento.

Em entrevista à Revista Ampla, da Unimed Paraná, o médico geriatra Caio Henrique Yoshikatsu Ueda explica que envelhecer é um processo dinâmico e contínuo e que o envelhecimento saudável não significa simplesmente viver sem doenças. Envolve qualidade de vida e manutenção da capacidade funcional.

A ideia ajuda a compreender por que uma pessoa de 71 anos pode estar integrada à rotina de trabalho, enquanto outra, da mesma idade, prefere uma vida mais tranquila.

Idade é um dado, não um destino.

Aos 72, Olga: sua fonte de saúde é o trabalho

Disposição, energia e bom humor definem Olga Bongiovani. Aos 72 anos, a apresentadora soma 52 de profissão e mantém uma rotina intensa diante das câmeras. No ar de segunda-feira a sábado, ela comanda diariamente seu programa na Catve.

Nascida em Capinzal (SC), Olga começou a trabalhar aos 20 anos e nunca mais parou. A idade é declarada sem reservas:

“Com muito orgulho, 72 anos e 52 de profissão.”

Para a apresentadora, o trabalho está ligado à qualidade de vida.

“Minha rotina é tranquila, feliz, normal, porque entendo que trabalho é saúde. É muito interessante estar aqui, conhecer pessoas novas e aprender todos os dias com os entrevistados”, afirma. “Isso é vida, isso é saúde.”

Quando questionada se já se considera na terceira idade, a resposta é imediata:

“Não! Minha cabeça não tem 72 anos e sei que ainda tenho muito a fazer.”

A aposentadoria também não está nos planos.

“Já me perguntaram quando vou me aposentar. Nunca. Quando eu sair desta vida, creio que vou continuar trabalhando em outra”, brinca.

Olga aprecia dias de descanso e viagens, mas considera o trabalho uma diversão. Ler, acompanhar as notícias e preparar as entrevistas, segundo ela, renovam suas energias. Ela acorda cedo, mantém uma rotina ativa e encontra na profissão uma fonte permanente de estímulo.

Felicidade e saúde

Para Olga, a insatisfação pode contribuir para o adoecimento.

“Tem muita gente trabalhando, mas que não está feliz. Faz isso para pagar as contas, e eu sei porque as pessoas falam isso para mim.”

E completa:

“Se você está infeliz, o dia se arrasta. É difícil sair de casa e da cama. Tudo muda quando você está feliz com o que faz.”

Olga afirma não tomar medicamentos e diz acordar sem dores. Para ela, o segredo está na disposição, no interesse por novas experiências e no prazer encontrado na profissão.

“A felicidade traz saúde.”

A cadeira de balanço perdeu espaço

Durante muito tempo, a cultura popular tratou a velhice como um endereço: uma cadeira de balanço, alguns netos ao redor, a televisão ligada e muitas histórias para contar.

Não há nada de errado com a cadeira de balanço. O problema é imaginá-la como o único destino possível.

Beno prefere o caixa — e não parece estar reclamando.

Há um ano, quando chegou à rede supermercadista, recebeu uma oportunidade. Doze meses depois, aparece entre os colaboradores de destaque da empresa.

A fotografia desse reconhecimento talvez conte mais sobre o Brasil de hoje do que parece. É um homem de 71 anos, uniformizado, trabalhando, reconhecido pela equipe e com planos para os próximos anos.

Mais do que a imagem de um idoso em atividade, é o retrato de uma geração que aprende a envelhecer de outra maneira.

Talvez seja aqui que a música dos Beatles precise ser atualizada. Lançada em 1967, no álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, “When I’m Sixty-Four” imaginava o envelhecimento a partir dos 64 anos. Hoje, milhões de brasileiros ultrapassaram essa marca e continuam fazendo planos.

Beno já passou dos 64 e dos 70. Ainda pensa nos próximos cinco anos. Depois, talvez reduza o ritmo.

Parar? Ainda não.

Aos 71, ele não espera o futuro chegar. Trabalha para encontrá-lo no caminho.

Ao contrário da velha imagem da aposentadoria, chegar aos 64, aos 70 ou aos 80 não significa necessariamente fechar a porta.

Às vezes, significa apenas trocar o caixa — e continuar passando o futuro.

PUBLICIDADE