
O ritmo acelerado da vida humana neste emaranhado de modernidade tem se refletido em diversos comportamentos. Na correria do dia a dia, muitas pessoas acabam levando para suas atividades um ritmo mais intenso, acelerado e até marcado por quadros de ansiedade. O hábito de estar sempre ao telefone celular, ou de “dar uma olhadinha” constante, tem sido levado cada vez mais para um cenário onde não deveria estar, mas do qual muitas vezes se torna protagonista: o trânsito.
A desatenção, ligada a uma série de outros fatores relacionados ao comportamento humano, tem elevado o número de acidentes, feridos e mortos em um cenário preocupante — e até desesperador — para os órgãos de trânsito. Já nas primeiras seis semanas do ano, o número de mortes é elevado, exigindo análise e planejamento de ações voltadas a quem mais importa: o condutor. Sem mudança de hábitos, o cenário de paz transforma-se em um cenário de guerra.
Neste ano, desde o dia 1º de janeiro, a cidade de Cascavel contabilizou 12 mortes no trânsito, sendo seis dentro da cidade e seis nas rodovias, porém, dentro do perímetro urbano. O número é 200% superior ao mesmo período do ano passado, quando foram registradas quatro mortes até esta data — uma na cidade e três na rodovia. São muitas histórias interrompidas e entes queridos que deixaram de existir em pouco tempo.

Falta consciência
A reportagem do Hoje Express conversou com a educadora de trânsito e presidente do Cotrans (Comitê Intersetorial de Prevenção e Controle de Acidentes de Trânsito), Luciane de Moura. Segundo ela, o comitê, que segue as determinações do Programa Vida no Trânsito, analisou todos os casos e concluiu que as mortes deste ano — e também as do ano passado — estão ligadas principalmente ao excesso de velocidade, seguido da falta de CNH (Carteira Nacional de Habilitação), da desatenção e da embriaguez ao volante.
“Precisamos urgentemente que haja uma mudança de comportamento. Ainda há muito excesso de velocidade, tráfego em local impróprio e fatores agravantes como a pressa e a falta de atenção. Isso está trazendo graves acidentes, deixando vítimas e famílias em luto”, descreveu Moura.
No ano passado, foram registradas 47 mortes: 15 motociclistas, 12 condutores de veículos, 11 pedestres, quatro passageiros de carro, três ciclistas e dois passageiros de carro e de ônibus.
Contra o tempo: Cotrans reage para evitar mais mortes
Correndo contra o tempo e o mau comportamento dos atores desse cenário preocupante, os membros do Cotrans já retomaram os trabalhos neste ano. De acordo com a educadora, está sendo elaborado um planejamento com base nos dados, com o objetivo de reduzir vítimas e zerar óbitos. As ações serão conjuntas com órgãos, secretarias e instituições que compõem o comitê, seguindo as diretrizes do Pnatrans (Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito).
Segundo Moura, o ano passado foi encerrado com dados importantes e saldo positivo, já que está sendo elaborado um anuário que será divulgado em breve. “Já era para estar pronto, mas, como tivemos muitos sinistros e óbitos, a gente parou. Mas já sabemos que Cascavel teve 4,35 de índice de óbito por 100 mil habitantes no ano de 2025”, explicou.
O índice é menor que o de cidades de grande porte como Londrina, Maringá, Toledo, Francisco Beltrão e Foz do Iguaçu. “O nosso número ideal é zero, mas estávamos até com uma situação tranquila antes de chegarmos a este cenário. Estamos procurando entender o que está acontecendo, porque as pessoas estão atravessando em qualquer lugar, não respeitam a velocidade e não se entendem dentro de um contexto social. O trânsito está preocupando bastante, mas seguimos trabalhando e pedindo à população que nos ajude a reduzir isso e mudar essa situação”, afirmou.
Doze vidas interrompidas
Das 12 vidas perdidas, oito foram em janeiro e quatro apenas nos dez primeiros dias de fevereiro. O trânsito funciona como uma engrenagem: uma peça depende da outra e, quando uma se rompe, as demais são prejudicadas. Se todos seguissem as regras, o cenário poderia ser totalmente diferente. Infelizmente, avanço de preferencial, falta de sinalização, excesso de velocidade e uso de álcool continuam sendo comportamentos que custam vidas — e isso não tem preço.
O caso mais recente foi o da jovem Jhuliany Aparecida Gomes Ferreira, de 17 anos, que morreu após acidente entre carro e moto no cruzamento das ruas Noel Rosa e Vinicius de Moraes, no Bairro Brasília, no dia 7 de fevereiro. Ela estava na garupa da motocicleta, foi arremessada com o impacto e ficou em estado grave.
No local, foi atendida pela equipe do Siate, sofreu parada cardiorrespiratória, foi intubada e encaminhada ao HUOP (Hospital Universitário do Oeste do Paraná), mas morreu na terça-feira (10). Câmeras registraram o acidente. O motorista do carro fugiu sem prestar socorro, porém foi localizado e preso em flagrante no mesmo dia. O inquérito segue no GDE (Grupo de Diligências Especiais). O sepultamento ocorreu na quinta-feira (12), no Cemitério São Luiz.
A primeira morte do ano ocorreu em 6 de janeiro, nas primeiras horas da manhã, no cruzamento das ruas Salgado Filho e São Paulo. Um micro-ônibus da Secretaria Municipal de Saúde de Assis Chateaubriand colidiu contra uma Volkswagen Saveiro. O passageiro do veículo morreu ainda no local.
Socorrido pelo Siate, Luis Paulo da Costa, de 66 anos, estava em parada cardiorrespiratória e precisou de manobras de reanimação por mais de uma hora, mas não resistiu aos ferimentos causados pelo impacto.
Olheiros da multa; fiscais da imprudência
Muitas pessoas criticam os radares eletrônicos espalhados pela cidade, associando-os à frase de que Cascavel é “a cidade da multa”. No entanto, são esses “olheiros do trânsito” que, 24 horas por dia, identificam excessos cometidos por motoristas.
Segundo a Transitar, no ano passado foram aplicadas 115.161 multas. Em comparação com a população, seria como se uma em cada quatro pessoas tivesse cometido infração. Considerando a frota de aproximadamente 270 mil veículos, o índice equivale a um deslize para cada dois motoristas.
A cidade possui 53 radares eletrônicos, a maioria com poder de autuação — exceto as lombadas eletrônicas, que têm caráter educativo. Mais da metade das multas (77.037) foi por excesso de velocidade, conforme o artigo 218 do CTB (Código de Trânsito Brasileiro), com valores que variam de R$ 130,14 a R$ 880,41 e de quatro a sete pontos na CNH.
Em segundo lugar aparece o avanço de sinal vermelho, com 19.084 multas. Na sequência, 7.767 autuações por transitar em faixa exclusiva do transporte público e 700 por parar sobre a faixa de pedestres.



















