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segunda-feira, 2 de março de 2026

Quaresma, consumo fraco e instabilidadedo mercado pressionam suinocultura

Quaresma traz desafios para a suinocultura. Descubra os impactos da queda nos preços e o aumento na demanda por frigorificação – Foto: Jaelson Lucas / AEN

 Mesmo com abates em alta e exportações aquecidas, o produtor de suínos voltou a sentir o peso da queda nos preços pagos pelo animal vivo em estados como o Paraná. A redução nas cotações, registrada nas últimas semanas, acende um sinal de alerta no campo e reforça a instabilidade que marca o início do ano para a suinocultura brasileira.

O movimento de baixa ocorre justamente quando os números de abate indicam crescimento. Dados do setor apontam aumento na demanda por frigorificação. Ainda assim, lideranças da cadeia produtiva avaliam que esse fator, isoladamente, não explica a pressão mais intensa sobre os preços. “O que a gente sabe é que houve aumento no abate, mas isso não justifica essa queda mais acentuada”, afirma Delmar Briccius, presidente da Assuinoeste.

Efeito cascata

Segundo Briccius, o comportamento do mercado está ligado a um conjunto de variáveis que vão além da oferta imediata de animais. Entre elas, a desvalorização de commodities agrícolas como soja, milho e trigo, que também registraram recuo nas cotações. “Todos os produtos caíram de preço — soja, milho, trigo — e o suíno acabou acompanhando esse movimento”, explica.

A queda dos grãos representa, por um lado, alívio nos custos de produção, já que milho e farelo de soja compõem a base da ração. Por outro, o efeito positivo nem sempre compensa a redução na receita obtida com a venda do animal. Para muitos produtores independentes, as margens seguem apertadas, exigindo planejamento rigoroso e controle detalhado das despesas.

Outro fator tradicionalmente associado à queda nas cotações é a Quaresma. Historicamente, o consumo de carne suína sofre retração nesse período, em razão de hábitos religiosos e culturais que priorizam o pescado. “A Quaresma é um fator recorrente. Todo ano há essa redução”, observa Briccius. “Ela é, sim, um identificador importante dessa queda.”

Além da sazonalidade, o enfraquecimento do consumo interno também pesa. Em um cenário econômico desafiador, parte das famílias reduz o volume de proteína animal na cesta básica ou opta por alternativas mais baratas. “O país não atravessa uma boa fase, e isso impacta o consumo de carne suína”, pontua.

Exportações como fôlego

Se o mercado doméstico apresenta retração, as exportações surgem como válvula de escape. Em fevereiro, os embarques avançaram, reforçando a competitividade da carne suína brasileira no exterior. A combinação de câmbio favorável, sanidade reconhecida e capacidade produtiva consolidada mantém o Brasil entre os principais players globais.

A expectativa do setor é que o desempenho externo contribua para uma retomada gradual das cotações nos próximos meses. “Estamos vendo uma sinalização positiva. Entre abril e maio, a tendência é de recuperação”, projeta Briccius.

O Brasil figura entre os maiores produtores e exportadores mundiais de carne suína, com forte concentração da atividade na região Sul. Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul respondem por parcela significativa do volume nacional.

No Oeste paranaense, onde a suinocultura é base da economia regional, a oscilação de preços impacta diretamente o planejamento das propriedades. Investimentos em genética, tecnologia e bem-estar animal exigem previsibilidade — algo que o mercado nem sempre oferece.

O abate de suínos e a produção da carne atingiram recordes no Brasil em 2025, conforme dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foram mais de 60 milhões de cabeças abatidas no ano passado, gerando 5,6 milhões de toneladas de carne. Com esses resultados, a produtividade do suíno brasileiro foi a maior desde 2011.

Ainda assim, o setor demonstra resiliência. A profissionalização, o avanço em biosseguridade e a abertura de novos mercados reforçam a confiança de que a atual fase é conjuntural. Até lá, a palavra de ordem no campo é cautela, enquanto produtores aguardam um cenário mais estável e remunerações mais equilibradas.

Menor patamar de preços em 10 meses


A carne suína encerra fevereiro com a média mensal mais baixa desde abril do ano passado, em valores corrigidos pela inflação, reacendendo a concorrência entre as proteínas no balcão do varejo e nas negociações entre frigoríficos e produtores. Dados levantados pelo Cepea indicam que o recuo, iniciado ainda em janeiro, consolida um cenário de maior competitividade do suíno frente à carne bovina e ao frango.

De acordo com pesquisadores do Cepea, a atual vantagem não decorre apenas do enfraquecimento das cotações da proteína suína, mas também da trajetória de alta observada na carcaça bovina nas últimas semanas. Esse movimento encarece a carne vermelha tradicional e abre espaço para substituição no consumo doméstico, especialmente em um contexto de orçamento mais restrito das famílias.

No mercado de frango, embora também haja ajustes, a intensidade da queda é mais moderada, o que mantém o suíno em posição estratégica nas gôndolas. A diferença de preços tem sido um fator decisivo para redes varejistas em campanhas promocionais e para indústrias que utilizam a proteína como matéria-prima.

No campo, o comportamento do suíno vivo mostra desaceleração no ritmo de queda, mas ainda sob influência de viés baixista. Analistas apontam que o principal vetor de pressão segue sendo o descompasso entre oferta e demanda. A disponibilidade de animais permanece acima da capacidade de escoamento no mercado interno e externo, limitando reações mais consistentes nas cotações.

Com granjas operando com fluxo contínuo de produção e frigoríficos ajustando escalas de abate, o setor busca equilíbrio. Enquanto isso, o consumidor encontra preços mais acessíveis, e a cadeia produtiva monitora atentamente os próximos movimentos para evitar novos recuos mais acentuados.

Paraná é destaque

O mercado de suínos no Paraná ganhou novo destaque nacional com a divulgação do Boletim Conjuntural do Deral (Departamento de Economia Rural), vinculado à Secretaria da Agricultura e do Abastecimento. O levantamento da última semana de fevereiro confirma que o Estado consolidou sua liderança como maior exportador brasileiro de suínos reprodutores de raça pura.

Em 2025, o Paraná respondeu por 62,1% da receita nacional obtida com a venda de animais de alto valor genético ao exterior, somando US$ 1,087 milhão. O principal destino foi o Paraguai, além de mercados estratégicos como Argentina, Uruguai e Bolívia, que buscam material genético com elevado padrão sanitário e tecnológico.

O desempenho reforça a reputação do plantel paranaense. “Essa escolha pelo Paraná mostra, mais uma vez, que o Estado tem genética de ponta e sanidade do rebanho”, destaca o boletim. A liderança nas exportações evidencia a força da suinocultura local, não apenas na produção de carne, mas também na oferta de genética superior para a América do Sul.

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